O que adoece as mulheres? Uma reflexão sobre saúde mental, sobrecarga e a força do coletivo
- Entre Laços As Maias

- 30 de jun.
- 3 min de leitura
Por Lucimar Delaroli

No último sábado (27/06/26), participei, a convite das irmãs Maias, fundadoras do Entre Laços @entrelacosasmaias de uma roda de conversa sobre "Saúde Mental da Mulher em Tempos de Sobrecarga". Tive a missão de falar sobre um tema que atravessa a vida de praticamente todas nós: o que adoece as mulheres, como diferenciar a sobrecarga da exaustão e da alta performance e, principalmente, como reconhecer o momento de pedir ajuda.
São perguntas profundas. Cada uma delas poderia render horas de conversa. Ainda assim, gostaria de compartilhar algumas reflexões que considero essenciais.
O adoecimento feminino vai além das questões individuais
Quando pensamos em saúde mental, é comum acreditarmos que tudo depende apenas da nossa capacidade individual de enfrentar os desafios da vida. Mas essa é apenas parte da história.
Existe uma estrutura social que influencia diretamente a forma como vivemos, trabalhamos e cuidamos de nós mesmas. O machismo estrutural e o peso da chamada economia do cuidado fazem com que muitas mulheres carreguem responsabilidades invisíveis que raramente são reconhecidas.
E qual é a saída?
Ela está no coletivo.
"Juntas somos mais fortes."
Por isso, vale refletir sobre nossa cidadania: em quem votamos, de quem consumimos, quem apoiamos e quais causas fortalecemos.
Também é importante lembrar que o problema não está apenas entre homens e mulheres. Existem mulheres que reproduzem práticas machistas, assim como existem muitos homens profundamente comprometidos com relações igualitárias, baseadas na fraternidade, na colaboração e na compaixão.

O que adoece as mulheres?
Não existe uma única resposta.
Podemos compreender esse adoecimento a partir de três grandes dimensões: nossa biologia, as pressões culturais e as transformações socioeconômicas.
Nossa biologia
As mulheres vivem diferentes ciclos ao longo da vida.
Adolescência, gestação, puerpério, climatério, menopausa... Cada fase traz alterações hormonais, emocionais e físicas que impactam diretamente o humor, o sono, a energia, a concentração e a forma como nos relacionamos com o mundo.
O problema não está nesses ciclos.
O problema está em desconhecê-los ou ignorá-los, mantendo sobre nós uma expectativa constante de produtividade, como se o nosso corpo pudesse funcionar sempre da mesma maneira.
A carga mental invisível
Existe ainda um segundo fator: a economia do cuidado.
Enquanto muitos homens participam das tarefas, são as mulheres que, em grande parte, continuam responsáveis pelo gerenciamento da vida familiar.
Somos nós que organizamos consultas médicas, acompanhamos filhos, cuidamos dos idosos, dos animais de estimação, da casa e, muitas vezes, também acolhemos emocionalmente nossos parceiros.
Essa carga mental é silenciosa, mas extremamente pesada.
Ela consome tempo, energia e atenção.
Quando somada às exigências profissionais e pessoais, costuma produzir um sentimento devastador: a culpa.
A culpa por não conseguir dar conta de tudo.
A culpa por acreditar que estamos falhando.
A culpa por nos sentirmos insuficientes.

Alta performance ou exaustão?
Vivemos em um sistema que mede valor pela produtividade.
Aprendemos, desde cedo, que valemos pelo que fazemos, pelo que entregamos e pelo quanto produzimos.
Mas a vida não funciona dessa forma.
A vida é feita de ciclos.
Nós temos valor simplesmente porque existimos.
Nem tudo precisa ser sobre vencer, competir ou superar limites.
Acolher.
Colaborar.
Incentivar.
Construir relações saudáveis.
Tudo isso também sustenta a vida.
O sistema econômico atual é voraz.
Ele nos mantém ocupadas, aceleradas e exaustas porque, quando estamos constantemente cansadas, sobra menos tempo para refletir, questionar e fazer escolhas conscientes.
Vale a pena se perguntar:
Você realmente precisa do estilo de vida que construiu?
O que está tentando provar?
Para quem?
E por quê?
Toda essa exaustão está servindo a qual propósito?
Quando é hora de pedir ajuda?
Existe um ponto muito importante que não pode ser ignorado.
Observe três aspectos:
A intensidade dos sintomas.
A frequência com que eles aparecem.
O quanto eles comprometem sua vida.
Não é normal viver constantemente ansiosa, esgotada ou emocionalmente incapaz de realizar atividades que antes faziam parte da sua rotina.
Quando o sofrimento se torna intenso, frequente e limita sua vida, é hora de buscar ajuda.
Converse com sua rede de apoio.
Procure profissionais qualificados.
Permita-se ser cuidada.
Ninguém precisa atravessar esse caminho sozinha.

A força das conexões
O encontro promovido pelo Entre Laços reuniu profissionais de diferentes áreas, mostrando que a saúde mental é construída por meio de uma visão integrada do ser humano.
Médicos, psicólogos, terapeutas, educadores, especialistas em práticas integrativas e mulheres comprometidas com o cuidado estiveram juntos para lembrar uma verdade simples e poderosa:
Quando uma mulher encontra acolhimento, informação e uma rede de apoio, ela deixa de carregar o peso do mundo sozinha.
E talvez seja justamente aí que comece a transformação.




Comentários