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O dia em que parei de me esconder do meu próprio corpo

Atualizado: 12 de mai.


Eu sempre digo que, às vezes, a nossa história com o corpo começa muito antes de entendermos o que realmente estamos sentindo.


Eu cresci em uma família em que praticamente todas as mulheres tinham seios fartos. Minha mãe, minhas irmãs, tias, primas. Além disso, quase todas tinham cabelos lisos — e o meu era cacheado.


Desde muito nova, eu me sentia diferente.


E, naquela época, essa diferença não era apenas estética.Ela atravessava a forma como eu me via no mundo.


Eu era extremamente magra, praticamente reta. Não tinha seios — e isso me causava vergonha.

Vergonha de ir à praia.Vergonha de usar biquíni.Vergonha do meu próprio corpo.

Mas não parava aí.


Essa vergonha tocava a minha autoestima, a minha feminilidade e até a forma como eu me relacionava. Eu não me sentia à vontade para namorar. Não me sentia segura. Não me sentia confortável em ser quem eu era.

Cheguei a usar sutiãs com enchimento de óleo, tentando me aproximar da imagem que eu desejava ver no espelho.

Hoje olho para essa fase com mais compaixão.Mas, na época, era profundamente doloroso.


A decisão que mudou a minha vida


Em 2008, aos 29 anos, tomei uma decisão que mudaria a minha vida.

Decidi fazer a mamoplastia de aumento.

E não foi impulsivo.

Antes da cirurgia, busquei informação, refleti muito e tentei entender se aquilo vinha de um lugar verdadeiro — ou apenas da tentativa de corresponder a um padrão.

Eu não queria exagero.Não era sobre vaidade.

Eu queria naturalidade.Queria me olhar no espelho e sentir que o meu corpo refletia, de forma mais equilibrada, quem eu era e como eu desejava me sentir.

Era algo que impactava diretamente a minha vida social, emocional e a forma como eu ocupava o mundo.


O começo não foi fácil


A recuperação foi desafiadora.

Houve dor.Houve insegurança.Houve momentos de dúvida.

Minha família me apoiou — e isso fez toda a diferença. Mas nem todos reagiram da mesma forma. No ambiente de trabalho, por exemplo, encontrei julgamentos, olhares e falta de compreensão.

Mesmo assim, eu segui.

Na época, juntei tudo o que tinha e ainda fiz um empréstimo para realizar esse sonho. Foi um esforço real, concreto, cheio de significado.

E valeu a pena.


O que realmente mudou



Hoje, 18 anos depois, posso dizer com tranquilidade:foi uma das decisões que mais impactaram positivamente a minha autoestima.

A mudança foi física, sim.Mas não ficou no corpo.

Eu me tornei mais segura.Mais confiante.Mais à vontade comigo mesma.

Naquele momento, parecia que o mundo tinha se aberto para mim. Mas, olhando com mais consciência, entendo que o que mudou foi a forma como eu passei a me posicionar dentro dele.

Era como se eu finalmente tivesse me permitido existir sem vergonha.

E isso muda tudo.


Sobre medos — e verdades


Antes da cirurgia, ouvi muitos receios — principalmente sobre a amamentação.

Disseram que talvez eu não conseguiria amamentar.

Mas consegui.

Amamentei minhas duas filhas, cada uma por aproximadamente dois anos.

Para mim, isso foi muito significativo. Mostrou, na prática, que a mamoplastia não impediu que eu vivesse a maternidade de forma plena.


Não é sobre padrão. É sobre escuta.


Eu acredito na aceitação.

Acredito na importância de acolher o próprio corpo.

Mas também acredito que existe uma diferença entre aceitação e resignação.

Às vezes, existe algo que nos incomoda profundamente — a ponto de afetar nossa autoestima, nossos relacionamentos e a forma como vivemos.

E, nesses casos, mudar não significa falta de amor-próprio.

Às vezes, mudar é um ato de amor-próprio.

No meu caso, foi.

Eu não fiz por ninguém.Não fiz por pressão.Não fiz por impulso.

Eu fiz por mim.


Para quem sente esse incômodo


Se existe algo no seu corpo que te incomoda a ponto de afetar a sua vida…

Talvez seja hora de olhar para isso com mais verdade.

O primeiro passo pode parecer difícil.Você pode não ter apoio.Pode não saber por onde começar.


Mas, ainda assim, faça por você.

Se informe. Pesquise. Procure bons profissionais.Escute o seu corpo.

Porque, quando a mudança nasce da consciência, ela não transforma só a aparência.

Ela transforma a forma como você se habita.

E quando isso acontece, a sua luz começa a aparecer de verdade.

No fim das contas


Hoje, eu olho para essa escolha com gratidão.

Não porque ela me fez “melhor”.Mas porque me fez sentir mais inteira.

Mais segura.Mais confortável dentro de mim.

E isso, para uma mulher, é profundo.

Porque, no final, a transformação mais importante não é a que o outro vê.

É a que devolve a você a liberdade de se reconhecer no espelho — e na própria vida.

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